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Avijit Roy: Não é seguro ser blogger em Bangladesh

Avijit Roy: Não é seguro ser blogger em Bangladesh

 

Um blogger norte-americano de origem bangladeshiana foi atacado na capital de Bangladesh, Dhaka, no dia 26 de fevereiro. Autor de vários livros, Avijit Roy era extremamente conhecido por dar voz a temas polémicos no seu blog: escrevia principalmente sobre extremismo religioso e não poupava a críticas o Governo secular no país onde nasceu. As ameaças de morte encheram-lhe a caixa de e-mail mas não foram suficiente para o calar. Infelizmente, a liberdade de expressão acabou por lhe custar a própria vida.

A história que conhecemos de Avijit Roy começa em 2000. Por esta altura, não tinha mais do que 28 anos: formado em engenharia, decidiu não aceitar o Deus islâmico que a sociedade lhe impunha. Ao encontrar na ciência a resposta a muitas das questões que tinha sobre o universo, acabou por assumir o seu ateísmo e decidiu procurar na Internet uma forma de expressar os princípios em que acreditava.

Avijit-Roy

“[O ateísmo] é um conceito racional que se opõe a qualquer crença irracional e não-científica”, escreveu Avijit Roy recentemente na sua página do Facebook.

Ao lado de sete colegas que partilhavam as suas ideias, Avijit Roy fundou o blog Mukto-Mona (traduzido livremente do bengali para “Mente Livre”). A par com os 8 livros que publicou ao longo da sua vida, fez de tudo para denunciar a mentalidade extremista de Bangladesh e para mudar comportamentos. A Internet era a arma em que mais acreditava, certo de que seria capaz de transformar o mundo.

Mesmo sabendo que não seria aplaudido pela comunidade que criticava, Avijit Roy não deu tréguas às palavras e manteve as publicações regulares. As ameaças de morte que recebeu enchiam a caixa de e-mail, como contou no lançamento do seu livro “O Vírus da Fé”. Mas esse era um risco que estava disposto a correr para denunciar a verdade.

Eventualmente mudou-se para Atlanta, nos Estados Unidos, onde conseguiu nacionalidade americana. Trabalhava como engenheiro mas continuava a escrever sobre ciência, religião, liberdade e questões sociais em Bangladesh. Num artigo a ser publicado na edição de Abril/Maio 2015 da revista Free Enquiry, por exemplo, o blogger compara o extremismo religioso a um “vírus altamente contagioso”.

O ataque a Avijit Roy e todas as questões que lança

Apesar da distância, comunidades religiosas em Bangladesh mantiveram-se atentas a cada palavra digitada por Avijit Roy. E enquanto a Internet era para o blogger um meio de expressão, funcionava de forma semelhante para todos aqueles que repudiavam as suas ideias. Uma das ameaças mais conhecidas surgiu recentemente e correu a Internet: “Avijit Roy vive na América e, por isso, não o podemos matar agora. Mas vai ser assassinado assim que voltar.”

O regresso aconteceu em fevereiro de 2015, quando Avijit Roy e a esposa visitaram Dhaka para participarem numa feira do livro. Nesse mesmo dia, 26 de fevereiro, regressavam a casa de bicicleta quando um grupo de atacantes os intercetou. Atacado junto da Universidade de Dhaka, o casal foi arrastado e ferido gravemente com machados. Avijit Roy faleceu a caminho do hospital. A esposa, em estado grave, sobreviveu.

Nenhum dos atacantes foi detido ou identificado, apesar de recaírem suspeitas sobre um grupo local de islamitas. O mesmo grupo terá feito uma publicação no Twitter, no dia a seguir ao ataque, reivindicando a autoria do mesmo.

Entretanto, a notícia correu o mundo, provando uma vez mais que a Internet é uma arma poderosa e perigosa. Em Dhaka, estudantes, professores e bloggers reuniram-se num protesto contra a morte de Avijit Roy, na esperança de perceberem porque é que um blogger tem de morrer por aquilo que escreve.

 

Organizações como a Human Rights Watch, Amnistia Internacional, Repórteres Sem Fronteiras e as Nações Unidas condenaram o ataque e denunciaram o clima de medo a que todas as mentes livres são sujeitas em Bangladesh, onde os bloggers são frequentemente retratados como criminosos.

O presidente da associação de bloggers do Bangladesh, Imran H. Sarker, mostrou-se inquieto com o ataque e especialmente com a segurança dos escritores no país. Infelizmente, esta não é a primeira vez que um homem morre em Bangladesh por aquilo que escreve. Há dois anos atrás, o blogger Ahmed Rajib Haider morreu de forma semelhante. Era conhecido também pelas suas publicações anti seculares e por encabecear protestos contra o extremismo religioso.

Bangladesh é desde 1972 um estado secular e acredita-se que mais de 160 milhões dos seus habitantes sejam muçulmanos. Hoje, nas mãos da primeira-ministra Sheikh Hasina, o país procura proteger alguns dos ameaçados. Ainda assim, o Governo é também o responsável pelo bloqueio de websites e blogues, provando não ter vergonha em violar o direito humano à liberdade de expressão.

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