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Geração Hacktivista: Heróis ou criminosos?

Geração Hacktivista: Heróis ou criminosos?

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O Hacktivismo é o ativismo do século XXI. Embora o conceito tenha surgido nos anos 90 foi só nos últimos anos que a atividade começou a encontrar um lugar mais definido dentro da comunidade internacional.

Este ativismo exercido por experts da informática, verdadeiros hackers, tem vindo a provar que é possível lutar contra o sistema social e político usando como armas computadores e a Internet. Os casos WikiLeaks e Edward Snowden são as provas vivas desta verdade.

Neste post tentamos perceber esta geração de hackers e ativistas – ou whistleblowers – que tentam moldar o mundo através da Internet. Que operações polémicas foram estas, capazes de abalar a autoridade dos Estados Unidos da América e das suas principais organizações? Falamos de heróis justiceiros ou de criminosos traidores à pátria?

Wikileaks e Julian Assange

O primeiro grande passo do novo hacktivismo foi, possivelmente, dado em 2006, quando o jornalista australiano Julian Assange fundou o Wikileaks, um projeto que assumia como missão desvendar todos os segredos de governos e multinacionais. Era também o meio ideal para dar expressão aos whistleblowers, as pessoas que desejavam fazer denúncias de atos ilegais, desonestos e de má conduta dentro de grandes organizações.

Desde então que o WikiLeaks esteve envolvido na publicação de documentos polémicos, como as execuções extrajudiciais no Quénia e a revelação de documentos sobre o envolvimento dos Estados Unidos nas guerras do Afeganistão e Iraque. Julian Assange está a morar, desde 2012, na embaixada do Equador em Londres para evitar a extradição para a Suécia, onde está acusado de abuso sexual – uma acusação que ele mesmo diz tratar-se de uma cilada preparada pelo governo norte-americano.

O calvário de Bradley Manning

A história do WikiLeaks conduz-nos à história de um outro hacktivista: Bradley Manning. Em 2010, foi o militar e analista de informação norte-americano Bradley Manning, destacado para o Iraque, que entregou ao Wikileaks cerca de 700 mil documentos militares e ficheiros dos serviços secretos sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão. Por esse ato, foi preso, no Iraque, com apenas 22 anos.

Três anos mais tarde, durante o seu julgamento, Manning declarou perante tribunal que a sua ideia ao ceder tais documentos à Wikileaks era lançar “um debate nacional sobre o papel da política internacional e militar dos Estados Unidos” para que “a sociedade reavaliasse a necessidade de se envolver em operações de contra terrorismo que ignoram o efeito que têm nas pessoas que vivem diariamente nos ambientes onde essas operações ocorrem”. Hoje, Manning encontra-se a cumprir uma pena de 35 anos pelos alegados crimes cometidos.

As revelações de Edward Snowden

Mais recentemente foi Edward Snowden quem lançou o maior escândalo de sempre relacionado com a própria National Security Agency, uma das maiores agências de inteligência norte-americanas. Conhecido primeiro por Verax, o nome que dava a si mesmo para falar com jornalistas, Edward Snowden expôs um programa gigantesco de vigilância secreta a nível mundial.

Esta revelação, que comprovava a existência de um sistema Big Brother, tornou-se mais polémica ainda quando Snowden apresentou provas de que a Casa Branca tinha conhecimento do programa. Com apenas 29 anos, Edward Snowden tinha trabalhado já como agente da CIA especializado em sistemas informáticos e telecomunicações e como subcontratado da NSA.

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A grande revelação do hacktivista aconteceu a 9 de junho de 2013, quando Snowden surgiu finalmente para numa entrevista vídeo. Ao longo de 12 minutos, Snowden explicou como qualquer agente do NSA tinha acesso às conversas telefónicas e correspondência eletrónica de qualquer cidadão do mundo. Tudo o que precisava de saber era o endereço e-mail e o número de telefone.

Este golpe foi duro, especialmente tendo em conta a naturalidade e calma de Snowden durante a entrevista. “Estas coisas têm de ser decididas pelo público e não por alguém contratado pelo Governo”, justificou Snowden, dando a cara para reforçar a autenticidade da informação. Sem referir qualquer ideologia política, tudo o que Snowden desejava era denunciar algo simplesmente errado que violava um dos direitos fundamentais de qualquer cidadão: a sua privacidade.

Duas semanas após a entrevista, os Estados Unidos acusaram formalmente Snowden pelo crime de roubo de informação classificada e espionagem, mas este já estava em Hong Kong, após ter fugido do Havai (onde trabalhava, tinha uma namorada e, apesar de tudo, seria facilmente encontrado pelas autoridades).

Após Hong Kong receber um pedido de extradição para Snowden, as autoridades locais deixaram o ex-agente embarcar num avião de uma companhia aérea russa. A bordo Edward Snowden foi acompanhado por um elemento da WikiLeaks, enviado por Julian Assange, que demonstrou especial interesse no caso e interveio para evitar a detenção do hacktivista.

Apesar de não ter sido detido, Snowden encontra-se atualmente na Rússia, sob condição de exilado político… embora para um hacktivista não haja exílio desde que tenha um computador com acesso à rede.

Entretanto, o debate continua: o hacktivismo é um crime ou um ato heróico?

As opiniões dividem-se por todo o mundo. Um inquérito encomendado pela revista norte-americana “Time” revelou que a maioria dos norte-americanos considera Snowden um traidor e os seus atos absolutamente reprováveis.

A população jovem, no entanto, parece simpatizar com o hacktivista, isto talvez porque a fatia de 43% dos jovens comunga com Snowden uma educação cívica forjada na Internet. A diversidade inesgotável de informação partilhada em rede, boa parte dela fora do circuito formatado das televisões e dos jornais, não coincide exatamente com o sistema de leis que rege a maioria dos países, incluindo europeus e americanos.

Com percursos e perfis bastante diferentes, Assange, Manning e Snowden representam uma nova cultura que se instalou de forma mais sólida nos últimos vinte anos, um pouco por todo o lado, que aventa que as grandes organizações, incluindo os próprios Estados, devem ser sujeitas a um permanente escrutínio público e que não devem esconder a forma como atuam, principalmente quando isso põe em causa a privacidade dos cidadãos.

 

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Comentários

  • alice
    19 August, 2014

    OLa, muito bom este pequeno post! Pequeno mas com uma gigante questao para a actualidade do mundo, nao so da grande potencia digital EUA mas para restantes continentes! Acho que o hacktivismo hoje podera ter uma conotaçao muito diferente do que aquela que davam aos chamados Hackers! A questao que fica e´: sera que um hacker pratica um hactivismo inovador ou simplesmente uma especie d terrorismo digital??Sao Opçoes!
    Continuaçao de um optimo trabalho!

    • Gonçalo Sousa
      25 August, 2014

      Olá Alice, muito obrigado pelo seu comentário. Realmente este é um tema fascinante, que acreditamos irá ter cada vez mais impacto no futuro, onde ainda vão decerto surgir mais movimentos para o bem e para o mal. Estaremos cá para falar deles! 🙂

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