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Ross Ulbricht: o bom rapaz que criou a “Amazon das Drogas”

Ross Ulbricht: o bom rapaz que criou a “Amazon das Drogas”

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Da partilha de informação universitária ao e-commerce foi um passo. Hoje a Internet é uma ferramenta com inúmeras potencialidades, mas é também uma área cinzenta onde a legislação é dúbia e o conceito de ilegalidade ganha uma maior subjetividade.

Posto isto, podíamos estar a falar de pirataria, mas esse não é o assunto deste post. Em vez disso, trazemos-lhe a história de Ross Ulbricht, um homem recentemente condenado pela criação do Silk Road, um site frequentemente apelidado como a “Amazon das Drogas”.

Tudo terá começado há quatro anos atrás, estávamos então no ano de 2011. O objetivo era reunir no mesmo espaço online uma série de produtos que não estão disponíveis nas grandes lojas por serem considerados ilegais ou de difícil transação. Depois de criada a plataforma, Ross Ulbricht escondeu-a num recanto da Internet, inacessível aos browsers normais.

Da oferta de produtos fazia parte uma grande variedade de drogas e estupefacientes. Além do canábis, da heroína, do ecstasy e do LSD, nas prateleiras online do Silk Road havia lugar para medicamentos que encontraríamos em farmácias, e Krating Daeng, uma bebida da Tailândia que serve de base ao muito afamado Red Bull. Quem quisesse poderia também adquirir documentação falsa.

A estrutura da loja online era em tudo semelhante à de um site de compra e vendas pela Internet. Hoje o endereço do Silk Road está desativado, mas até ao seu bloqueio rendeu ao fundador cerca de 18 milhões de euros. Os pagamentos eram feitos em bitcoin, facto que excluía a utilização de contas bancárias ou o envolvimento externo de qualquer instituição.

Protegido pelo anonimato, Ross Ubricht continuou a atividade até 2013, data em que acabou por ser apanhado na sequência de uma investigação do FBI. A detenção ocorreu numa biblioteca pública de São Francisco, na Califórnia, e o “dealer digital” foi mesmo preso em flagrante delito. Estava, então, encontrado o Dread Pirate Roberts, vulgo através do qual se escondia.

A alcunha foi inspirada no romance de 1973, “The Princess Bride” (A Princesa Prometida), famoso pela adaptação ao cinema num filme de 1988 com o mesmo nome. Durante o julgamento, Ulbricht negou ser o detentor de tal pseudónimo, argumentando que aquele era o nome usado por Mark Karpelès, antigo CEO da Mt. Gox (uma empresa, agora falida, que era responsável por transações em bitcoin). A acusação acabou por não dar em nada, sendo depois negada pelo próprio Mark Karpelès através do Twitter.

Afinal, quem é Ross Ulbricht?

De Ross Ulbricht sabe-se que terá sido um estudante exemplar. Com uma imagem de bom rapaz, o jovem que tem agora 31 anos possui uma licenciatura em Física e um mestrado em Ciências dos Materiais.

Na adolescência foi escuteiro e era conhecido pelo amor à natureza e às tecnologias. O percurso profissional (disponível para consulta no LinkedIn) foi bem-sucedido, contando com trabalhos na área da energia solar e com a participação em projetos de solidariedade social.

Para defender Ross Ulbricht, familiares e amigos que acreditam na inocência, resolveram criar uma página de apoio e recolha de fundos. Em Free Ross encontramos depoimentos em defesa do criador de Silk Road e acompanhamos as atualizações do caso jurídico.

Ross Ulbricht: um caso nunca antes visto

Após a detenção, Ross Ulbricht foi acusado de sete crimes, entre eles, a liderança de uma organização mafiosa. Até à data, a acusação apenas costumava ser aplicada a chefes de grupos criminosos. Seguiu-se um longo processo judicial que culminou com a condenação do “dealer digital” pela juíza norte-americana Katharine B. Forrest.

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A sentença serviu de exemplo para futuros casos semelhantes e foi considerada por alguns especialistas como “invulgarmente pesada“. De acordo com a lei dos Estados Unidos, a magistrada não poderia decidir-se por uma pena inferior a 20 anos de prisão: todavia, não se esperava que a decisão final fosse prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.

A decisão foi promulgada depois de Ulbricht ter enviado uma carta a Forrest, onde  pedia clemência. O jovem de 31 anos alegava que o tempo que tinha passado na prisão até ao julgamento tinha sido suficiente para refletir sobre as suas ações, sublinhando que o objetivo de Silk Road não era contribuir para o aumento do tráfico e dependência em relação a drogas.

Em vez disso, o fundador do site de comércio eletrónico pretendia estimular as pessoas a fazerem as suas próprias escolhas e, com isso, ajudá-las a serem mais felizes. “Não defendo nem nunca defendi o uso excessivo de drogas“, afirmou. “Com Silk Road aprendi que quando damos liberdade às pessoas, nunca sabemos o que vão fazer com ela”.

Momentos antes de proferir a sentença, Katharine B. Forrest disse que o crime cometido “não tem precedentes”. Como tal, o “réu tem de suportar as consequências desse facto”. A declaração algo tendenciosa gerou polémica e vai ser uma das principais armas da defesa na fase de recurso.

Durante o julgamento, muitos dos argumentos usados basearam-se no reforço da imagem de bom rapaz de Ross Ulbricht. A defesa assentava principalmente no facto do jovem nunca ter pensado em Silk Road como uma organização mafiosa. O website seria uma “experiência na área da economia”, num mercado sem fronteiras e livre de legislações: “sem interferência do Estado, aberto a todas as oportunidades”.

A condenação foi principalmente sustentada no lucro que Ulbricht obteve com a loja online e no facto de seis pessoas terem morrido na sequência do consumo de drogas vendidas através do Silk Road.

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