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Yoani Sánchez, a blogger que desafiou o regime cubano

Yoani Sánchez, a blogger que desafiou o regime cubano

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Geração Y” é o nome do blog da jornalista cubana, Yoani Sánchez. Censurada pelo governo de Fidel Castro, é uma das figuras mais influentes do panorama internacional e viveu alguns dos episódios que marcaram a história recente do país. Leia este artigo até ao fim e conheça a jornalista que desafiou o regime de Cuba.

Mas, afinal, quem é Yoani Sánchez e porque motivo é tão importante? Já lá vamos. Licenciada em Filologia pela Universidade de Havana, a ativista era ainda jovem quando criticou a intelectualidade do meio universitário e a sua falta de ligação à realidade. À semelhança de muitos outros, Yoani foi obrigada a abandonar Cuba por falta de oportunidades. Durante dois anos, trabalhou na Suiça, onde começou a contactar com o mundo das tecnologias. Familiarizou-se, então, com o computador e começou a utilizá-lo na sua vida profissional.

Em 2004, regressou ao seu país de origem e foi aí que tudo começou. Como tinha ficado mais do que 11 meses fora de Cuba sem qualquer licença especial, tinha perdido o direito de regressar. A situação foi relatada no post com o título “Eu vim e fiquei“, onde também conta as razões familiares que motivaram o seu regresso. Para evitar ser expulsa Yoani resolveu destruir o seu próprio passaporte. Mas este foi apenas o primeiro episódio de uma longa história que apenas estava a começar.

Geração Y” nasceu em 2007, altura em que a cubana trabalhava como webmaster, escritora e editora do “Desde Cuba“, uma plataforma de jornalismo cidadão que agrega vários sites e blogs. Com um forte carácter interventivo, o site resultava da colaboração de jornalistas que trabalham na revista Consenso e, rapidamente, se tornou num caso de sucesso blogosférico a nível nacional e internacional.

Os conteúdos pretendiam mostrar a realidade e o seu impacto foi tão evidente que alertou o governo de Fidel Castro para os potenciais perigos da Internet para o regime. Por esse motivo, em março de 2008, foi implementado um sistema de filtragem que impedia o acesso ao blog através de Cuba.

O bloqueio ocorreu após a eleição do novo presidente cubano, Raúl Castro, que subiu oficialmente ao poder em fevereiro de 2008. Com as atenções voltadas para Cuba, Yoani foi entrevistada por vários jornalistas internacionais, o que resultou num aumento da notoriedade e de visibilidade da blogger.

Com a aplicação do método de filtagem, Yoani ficou impedida de atualizar o “Geração Y“. Passou, então, a descrever-se como um “blogger cega”, já que nem ela podia ver os seus próprios posts. Como alternativa, contou com a ajuda de uma rede de colaboradores que se  encarregavam de fazer as publicações por ela. O processo era simples: enviava os conteúdos por e-mail ou ditava-os via telefone para que pudessem ser publicados.

Sem qualquer explicação do governo, o blog voltou a ficar disponível em 2008. “Um pequeno buraco se abriu na longa noite de censura”, foram as palavras publicadas por Yoani Sánchez na sua página do Twitter. “Geração Y” está atualmente traduzido em 15 línguas e funciona como uma verdadeira porta para a realidade atual de Cuba.

A crítica de Fidel Castro

Ainda que sem mencionar nomes, julga-se que Yoani foi alvo de crítica por parte de Fidel Castro. O episódio teve lugar em 2008 e está relacionado com a escrita do prólogo do livro “Fidel, Bolívia e Algo Mais“.

No texto Fidel Castro critica a forma de pensar de uma “mulher jovem cubana”, assim como todos os jovens que a ela se associam. Refere, ainda, um “imprensa neocolonialista da antiga metrópole espanhola que os premeia”, alegadamente numa referência  ao prémio “Ortega y Gasset” atribuído a Yoani Sánchez.

No mesmo prólogo, Fidel Castro criticou ainda Caetano Veloso por ter pedido “perdão” aos Estados Unidos por causa da música “Base de Guantánamo“. “Em duas palavras: o músico brasileiro pediu perdão ao império por criticar as atrocidades cometidas naquela base naval em território ocupado por Cuba”, pode ler-se. Em resposta a estas declarações, Caetano afirmou que pensa “por conta própria” e que não pediu “perdão a ninguém”.

Por parte de Yoani, a resposta veio sob a forma de um post ilustrado. A blogger publicou uma imagem com a frase “alguns instrumentos antigos da era soviética não morreram“. Na mesma publicação diz-se atacada por alguém com um poder infinatamente superior ao seu e com o dobro da sua idade, redirecionando para um texto do blog do seu marido – também ele um ativista cubano -, onde o próprio critica a condecoração de várias figuras que descreve como “corruptos, ditadores e assassinos“. Entre eles, Nicolae Ceausescu, Erich Honecker e Robert Mugabe.

Vigilância e agressões

A guerra de palavras ganhou uma nova dimensão quando, em 2009, a blogger publicou um texto onde afirmava que o seu prédio estava a ser vigiado pelo Ministério do Interior, o organismo responsável pela vigia de pessoas com potencial subversivo. Na publicação fala, de dois indivíduos, vestidos à civil, que montavam guarda à porta da sua casa. O post é ilustado com fotografias e menciona, inclusive, a existência de turnos rotativos.

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Em outubro do mesmo ano, foi obrigada a utilizar um disfarce para poder entrar num debate, onde, teoricamente, a entrada seria livre. Chegada à sala, Yoani Sánchez deparou-se com uma série de cadeiras vazias, já que as autoridades estavam a impedir que muitos entrassem. Uma vez lá dentro, retirou a peruca que usava, pediu para falar e perguntou se o mesmo filtro ideológico ali usado também servia para os blogs.

Posteriormente, em novembro de 2009, numa viagem em direção a uma manifestação pela paz que se realizava em Havana, foi abordada por três agentes da autoridade, que vestiam roupas de civis. Estava, então, acompanhada pelo escritor Orlando Luis Pardo e pela blogger Claudia Cadel.

Os polícias ordenaram a entrada no carro, mas os três recusaram-se já que não haviam apresentado qualquer mandato judicial. Perante a recusa, os agentes usaram a força para os obrigar a entrar no veículo. Durante a detenção, Yoani Sánchez foi agredida violentamente enquanto lhe diziam que havia ido longe demais nas suas publicações.

Os três detidos foram depois deixados num local longe da manifestação, o episódio foi tornado público e criticado pela comunidade internacional. O governo negou-se, no entanto, a confirmar as detenções, afirmando que os ferimentos e as nódoas negras teriam sido feitos pelo próprio marido.

Uma entrevista polémica de Yoani Sánchez

Em 2009, Yoani, que no ano anterior havia sido considerada como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time, enviou uma série de 7 perguntas a Obama, onde explorava a frágil e antiga relação dos Estados Unidos com Cuba. Quando recebeu as respostas, publicou-as em “Geração Y” e o artigo chegou mesmo a ser destacado no site do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

No ano de 2011, altura em que estalou a polémica do Wikileaks, um documento confidencial revelou que a blogger havia mentido em relação à entrevista: afinal, quem respondeu às perguntas não foi Obama, mas sim o seu Escritório de Interesses dos Estados Unidos em Cuba.

Na verdade, esta é apenas mais uma das controvérsias em que a blogger Yoani Sánchez está envolvida. Elementos do governo cubano afirmam que existem interesses externos intrínsecos e dizem que o “Geração Y” não passa de uma arma política utilizada pela CIA para atacar o regime de Havana.

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